A constatação é cruel, dura, mas verdadeira. Há muita história para contar, porém ninguém denuncia por medo, para proteger sua vida e de sua família. Um dos moradores definiu bem a situação em que se vive. “Quando os direitos civis chegarem, já estaremos mortos”.

O medo de denunciar, tanto a polícia quanto os traficantes, e também de se falar no assunto, é generalizado. Nada é dito sobre a procura de políticos para resolver os problemas ou mesmo nenhuma organização de direitos humanos.

A grande questão permanece: como fazer dos moradores portadores conscientes de direitos civis, capazes de enfrentar todos os seus predadores. Entender os mecanismos de domínio, suas redes e articulações é necessário para políticas públicas mais eficazes e justas. A intervenção militar no Rio de Janeiro só tornou isso mais visível, mas isso existe faz tempo e sob a capa de outro viés.

Em 25 de abril de 1974, caía em Portugal a mais antiga das ditaduras europeias, por meio de um movimento articulado mais jovem das Forças Armadas portuguesas e por setores mais “liberais” da elite militar, dando início a um período marcado por intensas agitações políticas e sociais. Este quadro foi determinante para que, em um momento de recrudescimento da Guerra Fria, os olhos do mundo se voltassem para Portugal e para suas ex-colônias, fazendo com que estas áreas passassem a desempenhar um papel de extrema importância nos cálculos políticos das grandes potências, dentro da arena internacional. Desta maneira, a instituição militar, um dos sustentáculos do velho regime, foi a responsável pelo movimento que determinou o seu fim. Tal fato vai ser de fundamental importância para a recomposição das relações entre a sociedade civil e as Forças Armadas, que até então eram vistas por aquela como um instrumento do regime ditatorial.

No Brasil, se bem observarmos, vivemos em uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas, agora estão mais ainda por causa dos cortes dos programas sociais que o atual governo de Estado de exceção impôs a milhares de famílias.

Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram  submetidas. As discussões dos vários organismos,  responsáveis pela segurança, nunca vão à raiz da questão. Ou se faz justiça social neste país por meio das reformas  agrária, tributária, política e do sistema de segurança ou nunca superaremos a violência. Ela crescerá em todo o país.

A esperança nasce deste compromisso de transformação. Deve ser pensada na linha do que nos ensinou o grande filósofo alemão Ernst Bloch que formulou “o princípio esperança”. Quer dizer, a esperança não é uma virtude, entre outras tantas. É muito mais: é o motor de todas elas, é a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaiado; é a coragem de sonhar um outro mundo possível e necessário, e a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que nunca nos deixam parados nas conquistas alcançadas ou quando derrotados, nos fazem levantar para retomarmos a caminhada.

A esperança se mostra no compromisso de transformação, na ousadia de superar obstáculos e em como enfrentar os grupos de opressores. Isso não pode morrer nunca.