Está extinta a escravidão no Brasil, revogam-se as disposições em contrário. Este foi o teor dos dois artigos da Lei que aboliu a escravidão dos negros no Brasil, em 13 de maio de 1888. Quase quatrocentos anos depois, o mais longo holocausto e um dos mais gravosos genocídios da história chegavam ao final, com o país sendo o último do mundo a eliminar o regime de servidão.
A justificativa da República, coisa de todos, que se inaugurou um ano depois, em 1889, foi um pacto de adesão inderrogável aos valores libertários e civilizatórios da revolução iluminista: liberdade, igualdade e direitos do cidadão, estruturado nos fundamentos da justiça e garantido por um estado democrático de direito.
Desgraçadamente, a mão visível que libertava o Brasil do absolutismo, do despotismo, da servidão e dos privilégios de nascença, de maneira cruel, brutal e injusta reescravizou o negro e construiu uma igualdade particularizada que distingue os brasileiros negros e brancos em cidadãos superior e inferior.
Sem terra, habitação, emprego, moradia, renda e educação; sem a possibilidade de votar e ser votado, impedido de participar do processo politico e sem qualquer indenização ou reparação econômico financeira, o negro foi jogado para as favelas e comunidades periféricas e escanteado da vivência e integração da nova vida nacional.
Ali se manteve se mantém e é mantido pelo tráfico, pela milícia, pela policia e por todos demais anteparos sociais que instituíram e estimulam viva e abertamente a ferida da discriminação e racismo, que, inapelavelmente, os mantem abandonados, desamparados, interditados, separados e desiguais.
O Editorial da Folha de São Paulo em 10 de maio passado, novamente e acertadamente chama atenção para o grave apartheid que divide os brasileiros negros e brancos no nosso país. No limiar do século 21, a diferença de renda entre negros e brancos alcança o patamar de 55,8%; 47,5% deles são trabalhadores informais e 66% dos homens e mulheres negros compõem o grupo dos desocupados e os subutilizados no mercado de trabalho brasileiro.
O caos produzido pelo Corona Vírus escancarou e iluminou para todos nós as profundas desigualdades que estruturam a vida da maioria dos brasileiros e de como o esforço mesmo para ficar em casa, divide de maneira desigual o sofrimento e a privação. Principalmente, a parte mais vulnerável e necessitada dos brasileiros que ficarão sem seus empregos, seus salários e sem condições de garantir a sobrevivência de suas famílias.
A pandemia apontou com mais ênfase e efetividade, ainda, a forma desproporcional como deverá aprofundar as distâncias sociais e sacramentar as injustiças entre grupos de brasileiros, em especial os negros.
Invisibilizados no seu trabalho informal e inelegível por todas as carências sociais e burocráticas, o negro será castigado impiedosamente para acessar os recursos governamentais, para retornar ao mercado de trabalho e para manter a duras penas sua carteira na universidade. De novo, irão morrer mais, irão sofrer mais, irão perder mais, e praticamente ficarão impedidos de retomar a normalidade da vida social, quando ela se manifestar.
O day after, pós Corona Vírus irá exigir o pensamento de um país diferente. Mais humano, mais afetuoso, mais solidário, mais responsável, mais justo e equilibrado. Poderá ser também uma janela de oportunidades para  construirmos uma relação racial e social nova e diferente que, de fato e verdadeiramente promova, proteja e valorize a miscigenação e diversidade racial, construindo de forma efetiva e definitiva um Brasil  sem racismo, sem discriminação e com oportunidades e possibilidades iguais para os negros e todos os demais brasileiros. Bora transformar e promover diversidade racial de verdade??

José Vicente – Advogado, doutor em educação e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares